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Produtores ganham vitrine internacional na Anuga Select Brazil e mostram o Brasil que não cabe no rótulo

08/04/2026


Produtores ganham vitrine internacional na Anuga Select Brazil e mostram o Brasil que não cabe no rótulo

Na BR que corta Ouro Preto do Oeste, em Rondônia, Melissa Almeida vende chocolate, rapadura de cacau e gelatos sem lactose nem glúten em um trailer à beira da estrada. É ali, no meio do caminho, que muita gente descobre que o cacau da região pode ter outro destino, de menos commodity e mais identidade. “Eu via a necessidade de criar um produto que tivesse a nossa cara, algo regional mesmo”, diz. A resposta veio na forma de uma rapadura de cacau, inventada com a ajuda da avó mineira, que saiu de Belo Horizonte para dar o ponto do doce. “Como eu inventei, é algo exclusivo. Só a gente tem.”

Foi esse tipo de produto que o Sebrae decidiu levar para a Anuga Select Brazil 2026. Não alimentos in natura, mas produtos já prontos para prateleira, com marca, embalagem, certificações e lastro produtivo. O evento, a principal feira de negócios de alimentos e bebidas das Américas, acontece até o dia 9 de abril, no Distrito Anhembi, em São Paulo.

A estratégia do Sebrae na feira se baseia em três pilares: valorização da origem dos produtos, experiência gastronômica e geração de negócios. De acordo com Bruno Lopes, gestor de Alimentos e Bebidas do Sebrae Nacional, o foco é mostrar o caminho do alimento até chegar à mesa do consumidor. “A gente trouxe produtos com identidade, com origem e com capacidade de chegar ao mercado, tanto no Brasil quanto fora. Produtos que só tem no Brasil”, afirma.

A marca de Melissa Almeida, Cacau Raiz, nasceu com apoio direto do Sebrae, que orientou desde a formalização até identidade visual, embalagem e estrutura do negócio. O crescimento também passou por uma escolha que extrapola o produto. Melissa estruturou uma rede de fornecimento com mulheres da agricultura familiar, que ela chama de “Divas da Cacau Raiz”. São produtoras de cacau, frutas e insumos que abastecem a empresa e ampliam o impacto do negócio na região.

É uma forma de incentivar outras mulheres, de fazer o dinheiro circular e de mostrar que é possível crescer juntas.

Melissa Almeida, dona da Cacau Raiz.

Caju do Ceará

Mais ao Nordeste, o caju aparece de outro jeito. Nas mãos de Rosimeire Silva, no Ceará, ele vira doce, melado, ingrediente e também elo. Ela comanda uma agroindústria no Maciço de Baturité e construiu, com apoio do Sebrae, um negócio que combina produção, beneficiamento e articulação local.

A gente faz essa conexão com as mulheres da região — que é quem mais trabalha! — com quem produz, com quem transforma.

Rosimeire Silva, que comanda agroindústria de caju.

Ao redor da operação, ela também mobiliza estudantes da Unilab, incluindo jovens de países como Guiné-Bissau e Angola, além de alunos de agronomia e engenharia de alimentos, que encontram ali espaço de prática e geração de renda.

A empresa começou no campo, com milho e cana, e ganhou escala com a profissionalização da marca, rotulagem, certificações e entrada em novos mercados. Hoje, além da venda em lojas e restaurantes, Rosimeire recebe visitantes interessados em conhecer o processo produtivo e o chão de onde brotam tantos produtos que despertam curiosidade e apetite. “Quem não é visto não é lembrado. Então a gente precisa aparecer.”

Chocolate com cacau baiano e paraense

O mesmo cuidado aparece no chocolate da Clemmens, feito com cacau da Bahia e do Pará, em Brasília. A produção segue critérios rigorosos, com cacau fino, poucos ingredientes e linhas orgânicas certificadas. O resultado são barras intensas, com sabores limpos e ingredientes rastreáveis. “Na hora que a pessoa prova, ela entende”, diz Isabel Corá.

A empresa cresceu com apoio do Sebrae em feiras, capacitações e acesso a mercado. A certificação orgânica, exigente e custosa foi incorporada desde o início como valor da marca. Hoje, o desafio é expandir sem perder o controle sobre a qualidade e a cadeia produtiva.

Café de origem quilombola

Na outra ponta do estande, o café chega com mais uma camada de significado. O Café Quilombo, apresentado por Tarsila Geovana, nasce de uma produção quilombola no Espírito Santo, na divisa com a Bahia. O grão conilon, cultivado em comunidades tradicionais, ganha tratamento cuidadoso e posicionamento que valoriza sua história e sua origem.

É um café que carrega identidade, que carrega território.

Tarsila Geovana, da Café Quilombo.

A marca aposta em diferentes formatos — grão, moído e cápsula — e vem ampliando presença com apoio do Sebrae, que atua na estruturação comercial e na inserção em feiras. O resultado é um produto cheio de personalidade e com aquele sabor que só a roça tem.

Gastronomia com brasilidade

Essa combinação ganha forma e aroma na cozinha montada no espaço. Ali, a chef pernambucana Negralinda, à frente da Gastronomia do Mangue, conecta tudo. Filha de pescadores, ex-marisqueira, ela transforma ingredientes dos produtores em pratos que fazem o visitante parar. Paella vira “paelha do mangue”, brownie ganha passa de caju e cheesecake chega com jabuticaba.

A gente pega produtos que só tem no Brasil e faz essa releitura com muita brasilidade.

Negralinda, chef pernambucana, dona da empresa Gastronomia do Mangue.

Hoje, com uma linha de produtos congelados e padronizados, ela também atua na formação de outras mulheres. O trabalho envolve técnica, precificação e organização produtiva. “Quando a pessoa entende o processo, ela passa a valorizar o produto de outro jeito.”

Entre um pedaço de chocolate orgânico, um gole de café de origem quilombola ou uma garfada de “paelha do mangue”, a feira vai revelando um padrão difícil de copiar. Em um mercado cheio de produtos parecidos entre si, esses pequenos produtores chegam com textura e sotaques bem brasileiros. Produtos que carregam as muitas identidades de um povo que está aprendendo a se celebrar e que começam a ganhar espaço justamente por isso.

Fonte: Agência Sebrae

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